
Nossa memória é o resultado das lembranças que do que vivemos + a maneira como elaboramos estes momentos + o nosso estado emocional durante o momento registrado (tristeza, cansaço, raiva...).
Todos elementos chegam até nós fragmentados, como peças de um quebra-cabeça e frequentemente nosso estado emocional interfere na qualidade daquilo que registramos e transformamos em memoria. E interferem também na montagem final do quadro que levaremos para o resto da vida. A imagem final, na maioria das vezes, não corresponderá exatamente ao que de fato aconteceu.
Nem sempre enxergamos o quadro completo com nitidez. É impossível!Muitas vezes, uma situação corriqueira atual aciona uma memória mais antiga que já não foi tão agradável e esta, por sua vez, aciona um mecanismo de autodefesa que já nos bloqueia, parcial ou totalmente, impedindo uma perfeita compreensão do que estamos vivendo no momento atual e criando uma nova memória que já nasce deturpada.
Outras vezes, o simples cansaço de um dia de trabalho ou o stress de enfrentar um trânsito caótico nos impede, por exemplo, de ouvirmos uma frase completa de alguém que esperou por nós o dia inteiro e registramos apenas parte de um diálogo ou de uma reivindicação de um filho, fazendo com que fiquem "lacunas" na nossa memória e, por outro lado, criando neste filho a falsa impressão de que ele(a) não tem tanta importância para nós ou, pior e mais terrível, que ele não tem importância nenhuma.
E, a longo prazo, vão se criando abismos e uma visão deturpada de um passado em comum e surgem atritos que podem destruir relacionamentos que tinham tudo para serem maravilhosos.
O tempo cura todas as feridas, mas não apaga as cicatrizes, e elas podem ser muito dolorosas. A boa noticia é que, se há amor, se houve bons momentos, basta um pouco de boa vontade para todo um passado ser passado a limpo em pouco tempo e com bem menos trabalho de que poderíamos imaginar. Mas, infelizmente, não sem alguma dor, que pode variar de intensidade de acordo com a memória revivida.
Sempre há detalhes que nos escapam e, mesmo que lembremos de tudo, talvez aqueles detalhes não sejam tão importantes para nós, quanto o são para os outros envolvidos.
Nos últimos anos, tenho vivido praticamente só com minha filha caçula e neste dia a dia, temos vivido momentos de muitas cobranças e confesso que muitas vezes me senti injustiçada. E isso doeu muito. Muitas vezes até me senti ofendida e magoada com as palavras dela, criando com isso, novas situações ásperas e doloridas. Eu reagi à agressividade dela com frieza, magoa e silêncio, trazendo um novo distanciamento.
Por outro lado percebi que muitas vezes tive este mesmo comportamento com meus pais, de cobrar deles as falhas que eles cometeram comigo e com meus irmãos.
Ao sobrepor o comportamento dela comigo ao meu próprio comportamento com meus pais consegui, finalmente, entender não só como a nossa memória é construida, mas também que ninguém erra ou acerta sozinho. E que muitas vezes não nos colocamos no lugar de nossos pais ou nossos filhos (ou outras pessoas que estejam participando do nosso presente).
Quando finalmente compreendi que a agressividade dela, nestes momentos, não era gratuita, mas sim fruto de algumas cicatrizes que ainda doem muito nela e que estas cicatrizes são frutos de feridas antigas que foram abertas, no passado, involuntariamente e por uma visão parcial daquilo que foi vivido lá no passado, pude fazer uma escolha consciente: abrir mão de ter razão sozinha e passar a prestar atenção ao que ela tem a me dizer.
Não vou dourar a pílula, não. Foi extremamente doloroso descobrir que eu não fui, nem de longe, a mãe perfeita e amorosa que eu pensava que era, mas foi extremamente libertador descobrir que a culpa não foi totalmente minha.
Foi extremamente libertador descobrir que a minha filha me achava uma mãe ausente porque quando ela enfrentou as mudanças da adolescência e precisava de uma amiga ou quando ela tinha um pesadelo e precisava de alguém em quem ela confiava para fazê-la relaxar e enfrentar e superar o medo, eu não estava lá, mas estava trabalhando para suprir as suas necessidades básicas de abrigo e alimentação. É claro que o fato de eu estar trabalhando não preenche o buraco que ficou pela ausência da mãe/amiga e, provavelmente, se ela tivesse podido escolher, ela escolheria uma vida mais simples, mas que a mãe estivesse mais tempo com ela, para suprir as carências emocionais do desenvolvimento dela.
Não há como voltar a passado e mostrar à ela ou ao seu irmão ou aos meus pais como foi que as coisas aconteceram a cada dia das nossas vidas.
Nem eles podem mudar ou justificar as escolhas que fizeram, nem precisam.
O amor que sentimos uns pelos outros nos fez ficarmos unidos apesar de tantos sentimentos e memórias conflitantes.
Mas a partir da compreensão que as memórias que criamos a cada dia são como quebra-cabeça e que sempre há a possibilidade de perdemos 3, 4 ou mais peças, gravando apenas parte do que realmente está acontecendo e que cada um de nós elabora estas memórias de um modo muito particular, de acordo com a nossa propria maneira de pensar e sentir, podemos começar a construir um relacionamento saudável, perfeito e respeitoso.Constantemente ouvi minha filha dizer que eu não conseguia enxergá-la, mesmo quando estava olhando para ela. Intimamente, sem abrir a minha boca, eu respondia que ela também não estava me enxergando e me compreendendo. E nestas horas me peguei lembrando de quantas vezes eu mesma não compreendi meus pais, nem eles à mim.
Todos estávamos certos, cada um assimilou, daquilo que vivemos, uma parte dos fatos e elaborou como pode, usando parâmetros próprios e tendo que lutar com sentimentos que no dia seguinte já não estariam ali, mas que naquela hora mudaram a maneira de se compreender o momento.
E todos nós temos uma espécie de "quarto do pânico interior", um mecanismo de defesa que faz com que nos fechemos dentro de nós mesmos, temporariamente, para nos proteger da dor. E é nessa hora que acontecem a maioria dos nossos erros: deixamos de "pegar" peças importantes do quebra-cabeça fazendo com que cada um de nós tenha uma lembrança diferente e única de um mesmo acontecimento.
Quando compreendi que simplesmente as lembranças da minha filha eram diferentes das minhas e que, por diferentes razões, ela não tinha uma memória completa de fatos passados, assim com eu também não, me tornei mais flexível e sensível às suas dores. Ela, por sua vez, passou a me ver não como antagonista, mas sim como alguém em quem ela pode finalmente confiar. E pode perceber as lacunas em sua própria memória e optou por dar um passo de cada vez para reorganizar as suas próprias emoções.
E estas descobertas eu incorporei ao modo como encaro a vida e os relacionamentos.
Sabendo que mesmo que 2 vivam uma mesmíssima situação cada uma interpretará e registrará os fatos a seu modo e as duas estarão certas, fica mais fácil entender e aceitar as diferenças e fica muito mais fácil ainda um consenso e uma convivência tranquila e feliz.
Ninguém é dono da verdade, ninguém é senhor absoluto do passado, ninguém pode afirmar com 100% de certeza que lembra de tudo o que aconteceu, até porque as palavras não ditas e os fatos anteriores aos acontecimentos também fazem parte da construção dos fatos, já que fazem parte da bagagem emocional dos envolvidos e não podemos ler o interior de ninguém. Podemos apenas supor os motivos que os levaram a agir como agiram.
Podemos afirmar, sim, que lembramos de como nos sentimos na ocasião e de qual quadro se formou em nossa mente a partir dos fatos vividos em comum, de como assimilamos.
E a partir de uma troca franca e aberta, reconhecendo as nossas próprias limitações e as limitações daqueles que nos cercam, poderemos construir um futuro tranquilo e seguro, individual e coletivamente.
Não tenha medo de olhar o passado. Pode ser assustador e doloroso, mas vale muito a pena.
E não se prenda muito tempo por lá, afinal o presente passa rápido e há muito o que ser vivido e descoberto.
Lembre-se sempre de que cada indivíduo é riquíssimo por si mesmo e as diferenças nos tornam únicos e muito especiais.
Só eu sou eu e só você é você.
Não há ninguém no mundo igual à mim.
Não há ninguém no mundo igual à você.
Gisele Fiaux









